A ciência de aproveitar o que deu errado - Resenha crítica - 12min Originals
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A ciência de aproveitar o que deu errado - resenha crítica

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Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 

Editora: 12min

Resenha crítica

Um erro é, no fundo, uma distância: a que separa o que se esperava do que de fato aconteceu. Quase toda vez, essa distância é uma perda. O cálculo não fecha, a peça não encaixa, o experimento desanda. Foi para isso que a palavra erro existe, para marcar o ponto em que a realidade desobedeceu ao plano e entregou menos do que se pediu.

Só que há uma minoria teimosa de casos em que a distância joga a favor. O resultado errado não vem pior que o esperado, vem melhor, e de um jeito que ninguém saberia encomendar. É como o relógio parado que, sem dar um tique, ainda acerta a hora duas vezes por dia: o defeito, por puro acaso, calha de produzir o acerto. A diferença, nas histórias a seguir, é que sempre havia alguém olhando na hora exata, alguém que reparou no acerto escondido dentro do defeito e tratou aquilo não como vergonha, mas quase como milagre. A primeira delas começa aqui no Brasil, num bosque de eucaliptos, com vinte e seis rainhas em fuga.

o dia em que vinte e seis rainhas fugiram

Nos anos 1950, o Brasil tinha um problema doce e teimoso. Queria produzir muito mel, mas as abelhas que viviam por aqui descendiam das europeias, criadas para o frio. No calor tropical, elas eram mansas e pouco produtivas. Em mil novecentos e cinquenta e seis, o geneticista Warwick Kerr foi à África estudar abelhas acostumadas ao calor intenso e voltou com cinquenta e uma rainhas da subespécie africana, muito mais produtivas, e também muito mais defensivas. O plano era cruzar as duas linhagens sob controle de laboratório, em quarentena, e selecionar só as filhas mais mansas. As colmeias ganharam telas especiais para impedir que as rainhas, maiores, escapassem.

Em mil novecentos e cinquenta e sete, em Rio Claro, um apicultor visitante que não sabia do risco achou que as telas estavam atrapalhando o movimento das abelhas. Removeu algumas. Vinte e seis enxames de rainhas africanas voaram para a mata e começaram a cruzar livremente com os bilhões de abelhas europeias que já viviam no país.

O que veio depois foi o pesadelo. A imprensa batizou o híbrido de "abelha assassina". Os primeiros quinze anos foram caóticos: ataques, mortes de animais e de pessoas, apicultores apavorados largando a atividade porque não tinham equipamento nem técnica para lidar com o novo bicho. O próprio Kerr contou, anos mais tarde, que achou que carregaria aquele acidente como uma vergonha pelo resto da vida. Por ora, guarde essa abelha no canto da memória. Ela volta no fim, transformada.

a curiosidade que não jogou a placa fora

Pule para Londres, mil novecentos e vinte e oito. Alexander Fleming volta de duas semanas de férias e encontra a bancada do jeito que a deixou, bagunçada, com placas de cultura largadas. Uma delas, com a bactéria estafilococo, tinha sido invadida por um mofo. Contaminação é o tipo de coisa que arruína um experimento. O gesto natural, o gesto de quem tem mil coisas para fazer, é jogar a placa fora e seguir em frente.

Fleming olhou de novo. E reparou que, ao redor da mancha de mofo, havia um círculo limpo: as bactérias tinham morrido ali. O fungo produzia alguma coisa que as matava. Ele chamou essa coisa de penicilina. Mais tarde, resumiu o episódio de um jeito desconcertante: quando acordou naquela manhã, certamente não planejava revolucionar a medicina descobrindo o primeiro antibiótico, mas suspeitava que era exatamente o que tinha feito.

Repare na divisão de trabalho dessa história. O acidente, a contaminação, era banal e acontecia o tempo todo. O raro foi o segundo olhar. A curiosidade que se recusou a tratar o imprevisto como lixo.

a cola que ninguém sabia para que servia

Agora um acidente mais modesto, que talvez esteja colado no seu monitor neste momento. Em mil novecentos e sessenta e oito, Spencer Silver, químico da 3M, tentava criar uma cola ultraforte para a indústria aeronáutica. Conseguiu o oposto: uma cola fraca, que grudava de leve e podia ser removida sem deixar resíduo. Pelos padrões da missão, um fracasso.

Silver passou anos apresentando a invenção aos colegas sem sucesso. Chamava aquilo de uma solução à procura de um problema. Até que outro funcionário da 3M, Art Fry, cansado de perder os marcadores no hinário do coral da igreja, percebeu que a cola fraca era perfeita para um marcador que grudava e descolava sem rasgar a página. Nascia o Post-it. A invenção não estava no laboratório de Silver. Estava na cabeça de quem, anos depois, encontrou o problema certo para a resposta que já existia.

E a lista é longa demais para ser coincidência. O forno de micro-ondas surgiu quando Percy Spencer, testando um radar militar em mil novecentos e quarenta e cinco, notou uma barra de chocolate derretendo no bolso. O marca-passo implantável veio de Wilson Greatbatch pegando, sem querer, um resistor mil vezes maior do que o necessário, o que fez o circuito pulsar no ritmo de um coração (hoje cerca de três milhões de pessoas vivem com um deles). O vidro de segurança, presente em todo para-brisa, nasceu de um frasco que o químico Édouard Bénédictus derrubou e que, em vez de estilhaçar, se manteve inteiro graças a uma película seca por acaso na parede de dentro.

o que separa o acaso do desastre

Se acidentes felizes acontecem com tanta gente, a pergunta interessante deixa de ser "por que tive sorte" e passa a ser "o que algumas pessoas fazem com a sorte que as outras deixam passar". É exatamente esse o território de Christian Busch, professor da Universidade de Nova York e da London School of Economics, em A Mente da Serendipidade.

A tese de Busch é direta: serendipidade não é sorte cega, é sorte inteligente. O imprevisto é só o gatilho, a faísca. O que transforma a faísca em invenção é a capacidade de reparar no inesperado e conectar pontos que pareciam soltos. Fleming, Silver, Spencer e Kerr não foram apenas sortudos. Foram pessoas que, diante de um resultado errado, fizeram a pergunta que quase ninguém faz: e se isso aqui não for um defeito, e sim uma pista. Vale lembrar a frase que Louis Pasteur deixou sobre o assunto: o acaso favorece a mente preparada.

Há um alívio embutido nisso, e é a parte que costuma passar despercebida. Kerr buscava a abelha perfeita, com controle total das variáveis. O melhor resultado chegou quando o controle se perdeu. Não significa que planejar seja inútil. Significa que o plano impecável não é pré-requisito para um bom desfecho. Um crítico descreveu o livro de Busch como um antídoto para um mundo viciado em eficiência e controle, e a expressão cabe bem. Boa parte do que a gente chama de erro é só um resultado que ainda não foi reinterpretado.

O mesmo vale para o ofício mais deliberado que existe, a escrita. A escritora Clarice Lispector contou, numa crônica de mil novecentos e sessenta e oito, que seu tradutor americano, Gregory Rabassa, que levou A Maçã no Escuro ao inglês, concluíra num prefácio que ela era ainda mais difícil de traduzir que Guimarães Rosa, por causa da sintaxe. A reação dela vira a história do avesso: confessou, meio sem graça, que tinha esquecido o que era sintaxe. Perguntou a um amigo, ouviu a explicação e seguiu desconfiada de que não podia ser só aquilo. Dizia respeitar a gramática e pretender nunca lidar com ela conscientemente, porque escrevia certo de ouvido, já que o certo sempre soa melhor. A prosa que travou um tradutor de mestres não veio do controle das regras, veio de um ouvido que os dispensava.

E as abelhas? Voltaram a ser notícia boa. Os apicultores brasileiros aprenderam a trabalhar com o novo híbrido, que se revelou mais resistente a doenças, mais adaptado ao calor e muito mais produtivo. A produção nacional de mel saltou de cerca de cinco mil toneladas por ano nos anos 1950 para aproximadamente sessenta e sete mil toneladas em 2024. O acidente que Kerr temia carregar como vergonha virou a base de um dos maiores produtores de mel do planeta. A desordem não foi corrigida. Foi digerida, e o sistema saiu dela mais forte.

o que fazer com essa informação

Se você gosta de história e de contexto, vale guardar a moldura: quase nenhuma dessas invenções nasceu de um plano cumprido. Nasceram de um gatilho inesperado mais uma mente disposta a reparar. A próxima vez que ler sobre uma descoberta "de gênio", procure o acidente escondido no começo da história. Ele quase sempre está lá.

E se você é do tipo que se cobra muito quando um plano sai do trilho, talvez esta seja a leitura mais útil. O erro de hoje não tem um veredito definitivo colado nele. Ele pode ser um resultado à espera de uma segunda interpretação. Não precisa forçar otimismo nem fingir que todo tropeço esconde uma dádiva. Basta deixar a porta entreaberta para a hipótese de que aquilo que escapou do controle ainda pode ter serventia. Foi assim com uma placa mofada, com uma cola fraca e com vinte e seis rainhas que ninguém queria soltar. O que lembra aquela velha história. É no balançar da carroça que as melancias se ajeitam. 

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